20 de maio de 2010

Robin Hood (Ridley Scott, 2010)



Tem razão o renomado crítico Roger Ebert quando diz que o cinema perdeu a ingenuidade – e faz isso em tom de lamento. Por influência da “indústria cultural” e necessidades de consumo de um mundo realista e apressado demais, transformamos em poeira mitos de milhares de anos e histórias criadas há séculos. Mudamos a Ilíada em "Tróia", renomeamos o País das Maravilhas, esnobamos a mitologia em “Fúria de Titãs" e tentamos encontrar bases reais para um conto popular de 700 anos. No caso de “Robin Hood”, a reprimenda poderia ser menor, já que até hoje há quem defenda que, por trás das cantigas populares, pudesse haver uma réstia de verdade para justificar a invenção de um personagem que roubava dos ricos para dar aos pobres em uma época sofrida para os aldeões britânicos.

Não espere, aqui, por "aquele" Robin Hood. Não espere por salteadores nas árvores de Sherwood, por um tirânico Xerife de Nottingham e, principalmente, pela inocência que conduzia o conto popular. Para a Hollywood contemporânea, não há lugar para inocência. Não há lugar para mitos, eles precisam ser justificados, precisam ter um pé na realidade. O novo “Robin Hood” imagina como a lenda poderia ter nascido se fosse real, e busca bases sólidas na história para contar isso – inclusive, imagina como o herói teria se tornado Robert Loxley, nome como ficou conhecido nos contos populares. A ideia de Scott é boa, se fosse realizada com plena consciência do seu objetivo. Aqui, ele fica indeciso entre justificar historicamente a lenda e entregar um filme que empolgue seu público. Ele acaba entregando ao público um filme com um ritmo extremamente irregular, cansativo em alguns momentos.

Robin, no caso, é um arqueiro de baixo escalão das tropas do Rei Ricardo – visto aqui como um presunçoso de mau caráter, bem diferente da visão “santa” do personagem na cultura britânica. Com a morte do rei, ele se desgarra do exército, volta à Inglaterra, mas acaba sendo levado pelo destino até Nottingham, onde assume o lugar de um lorde assassinado na guerra. A trama se desenvolve em torno da invasão francesa à Inglaterra, e não da tirania do rei John e do Xerife de Nottingham. Scott mostra as raízes das mazelas do povo, o nascimento do déspota, o surgimento da lenda. É uma visão interessante, mas há muito pouco de Robin Hood nessa visão – e essa ausência é sentida. “Robin Hood” é um épico medieval, no mais das vezes arrastado na busca por explicações e origens. Robin, aqui, luta contra os franceses e pelo surgimento da primeira Magna Carta, que foi realmente assinada pelo rei John em 1215 após os barões se reunirem, invadirem Londres e o forçarem a assinar o documento.

As árvores dão lugar à lama. O couro é substituído pela cota de malha. O arco dá lugar à espada, a floresta é trocada pela praia. Se os filmes anteriores ignoravam o período histórico em que se situa a lenda – e usava ele apenas como um fundo ou uma justificativa – o filme de Scott usa esse fundo como essência, talvez até demais. Falta alma ao Robin Hood de Scott, assim como falta uma personalidade ao personagem na pele de Russel Crowe.

Há bons momentos nessa reconstituição histórica, principalmente o veterano Max Von Sydow, o melhor em cena como Walter Loxley. Uma pena que os personagens do Frei Tuck, Will Scarlett, Xerife de Nottingham (representado de forma patética) e Little John tenham sido tão sub-utilizados, servindo apenas como suporte aos dramas de Robin e à relação apática entre ele e Marion, menos por culpa de Cate Blanchett e mais por imposição de um roteiro indeciso entre privilegiar o andamento dos fatos históricos e o desenvolvimento dos personagens. Não é um filme ruim da forma como muitos críticos têm bradado. Apenas decepcionante em seu próprio universo, e não na comparação com outros filmes do estilo - é possível que o filme cresça em uma revisão feita com mais calma.

O mais curioso é que o Robin Hood de Ridley Scott nos devolve à realidade, ao sair do cinema, com uma sensação de frustração, porque ele acaba terminando justamente no momento em que mais gostaríamos de ver ele continuar. Isso, sim, é o chamado tiro no pé – a vontade de começar a ver o filme justamente no momento em que ele acaba.

PS: Interessante a lembrança de Otávio Almeida. A música que toca ao fundo quando Robin e Marion dançam à noite, "Sea-Maiden", do The Chieftains, também aparece na trilha sonora de "Barry Lyndon".

9 comentários:

maicon2011 disse...

Fiquei instigado a ver o filme depois dessa sua frase final, porem é improvável que aconteça, não tenho saco o suficiente pra aguentar Robin Hood até o fim...quando sair de cartaz me conta! hehe

Fabio Rockenbach disse...

Ué... .não tem saco por causa do personagem? Sempre gostei dos filmes de Robin Hood nos cinemas, com exceção daquele do Mel Brooks.

Pedro Henrique disse...

Bah, o do Mel Brooks é o meu preferido. Na verdade não gosto mesmo é da versão do Michael Curtiz, apesar do Errol Flynn ser o cara dos Robins.

Esse me parece muito decorado, mas pouco elaborado. A sensação é que, para Ridley, tudo se resume a uma grande sequência de guerra - muito bem conduzida, diga-se. Durante a viagem até o final, não há expectativa no espectador sobre o que acontecerá.

Abs!

Fabio Rockenbach disse...

Mel Brooks já teve momentos BEEEEM melhores

pseudo-autor disse...

Eu gostei muito do Robin Hood exatamente por ser a história do homem por trás do mito. Achava aquelas versões do Errol Flynn e a mais recente com o Kevin Costner um porre porque insistiam em dar um tom de heroísmo que não necessariamente corresponde a imagem que eu tenho do personagem. Nisso tiro o chapéu para o Ridley Scott.

Cultura? O lugar é aqui:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Fabio Rockenbach disse...

Aí entra o choque de visões: não existe homem por trás do mito porque só existe mito, não é uma biografia... E o mito existe há 7 séculos. Ano que vem, vão criar outra versão em que ele era francês e não britânico, e por aí vai...
O erro, a meu ver, é não saber se privilegia a narrativa e o ritmo ou o aspecto histórico. O filme não se decide entre um lado e outro...

Otavio disse...

Pois é, acabou a ingenuidade...

Como espectador comum, eu diria que esse "Robin Hood" entra pra brigar (e perder) com filmes como "Coração Valente", "Gladiador" e tantos outros épicos. Menos com qualquer filme com o nome Robin Hood no título. Mas é divertido na medida certa, empolga e faz um convite eficiente pela torcida por Robin e Marion (Cate Blanchett). O romance entre os dois é construído com extrema paciência e convence na inicial troca de olhares até chegar à inevitável entrega ao sentimento.

Por outro lado, com um olhar crítico, digo que a produção é uma bagunça na construção da trama, que peca pelas coincidências de folhetim e fica dividida entre o real e a ficção. Daí terminar o filme com a mensagem “E a Lenda Começa…” parece conversa pra boi dormir, já que os 140 minutos que nos deixaram sentados no cinema são reais apenas para quem acredita em Papai Noel.

Abs!

Leandro Caraça disse...

O Robin Hood do Mel brooks só não é o fundo do poço porque depois teve "Drácula Morto mas Feliz".

CiNe ViTa disse...

Quero ver, mas com a devida cautela.

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