2 de abril de 2010

Mais sobre a Ilha...



Antes de qualquer coisa, o texto é puro SPOILER em torno de Ilha do Medo. Então, se não viu, passe reto.



Já li e debati sobre muita coisa relacionada à crítica de cinema, principalmente quando se entra em discussão a respeito do quão profunda e realmente salutar é a crítica de jornal. De certa forma, vale a mesma coisa para a receita de bolo que se tornou a crítica de cinema na internet, em blogs e sites de cinema - isso é assunto para outro post, sobre a pretensão do crítico de avaliar o filme como objeto esquemático e racional, quando, como qualquer forma de arte, ele deveria ser avaliado também (principalmente?) em termos sensoriais. O velho "discutir a arte", e não "julgar a arte", porque arte não se julga, se sente, assimila e se reage.
Enfim, quando escrevi sobre Ilha do Medo já fiz o texto preparado, também, para publicá-lo no caderno. É uma imensa perda de potencial discussão deixar de debater um filme tão rico por medo de entregar algo, porque a crítica em veículos impressos - em veículos em geral - parte do pressuposto de ser um "guia de cinema", e não um espaço para discutir cinema.
Apenas devaneios, já que minha ideia não é discutir o filme aqui, apenas apontar a quantidade de detalhes que escapam em uma primeira vista.
Revi "Ilha do Medo" nesta páscoa. E já havia comentado sobre como deveria ser obrigatório a todos essa revisão. Ela só serviu para ampliar minha certeza quanto à perfeição do roteiro e o brilhantismo de Scorsese. Porque, se o cerne das ideias do roteiro pertence a Lehanne, é Scorsese quem transforma todo aquele delírio em algo palpável, visual e visceral. Ele é o tradutor que, de certa forma, transforma o ditado original em algo ainda mais sublima após a tradução.
Essa imersão gradual promovida ao universo particular de Teddy Daniels é ainda mais fabulosa vista agora. Não se resume aos detalhes práticos - ele dizer que odeia água, não encontrar seus cigarros, a dificuldade de Chuck tirar a arma do bolso para entregá-la na entrada (afinal, ele é psiquiatra, não tem prática). Mesmo a forma como os pacientes olham para Teddy quando ele entra no prédio pela (suposta) primeira vez ou a reação tensa dos guardas em torno dele, quando ele sobe no jipe ("Seus homens estão tensos, chefe!"). As reações de TODOS em Shutter Island tem outra conotação agora, em seus mínimos detalhes.
Chuck, ou Leehan, por exemplo: o sutil sorriso que ele dá quando uma paciente fala a Teddy sobre como o doutor Leehan é maravilhoso é algo que escapa completamente ao público na primeira vez. O desinteresse dos guardas na busca às rochas tem sentido completamente diferente - sabe-se, agora, que eles estão todos fingindo. A forma súbita como Chuck deixa de chamar Teddy de "chefe" e exclama um "O que vai fazer agora, Teddy?" em um momento chave, planejado, calculado. Mesmo o fato de Teddy estar sempre com a mesma aparência e de cavanhaque em suas lembranças é um passo sutil de Scorsese apontando a fusão entre realidade e fantasia, a mescla entre fogo e água embalando seus devaneios, sobras de sua tragédia particular.
E a simples presença da vitrola tocando Mahler em três momentos - no escritório da chefia do sanatório, no escritório do chefe da Gestapo que se suicida e na casa onde Teddy sonha com sua esposa se tornando cinza e água ao mesmo tempo - é um toque ainda mais sutil nessa mistura de devaneios que lentamente nos insere no mundo de Teddy Daniels.
Genial, mas genial mesmo, é a forma lenta e gradual como o resgate do paciente Teddy é engendrado no mundo real e a forma como ele começa a aparecer nos seus devaneios. Os esforços por esse resgate, que é um esforço coletivo de todos na Ilha, começam a partir do momento em que a história da falsa paciente é contada inserindo, pela primeira vez, a figura dos 3 filhos afogados, e o misterioso paciente 67 surge na história para ficar vagando como um fantasma sobre Teddy. E a falsa paciente, ao mudar subitamente de comportamento em frente à ele, começa a inseri-lo como SEU MARIDO em todo o contexto. Ele, marido imaginário da paciente que teria fugido, a mesma que afogou seus três filhos. Esse processo lento no mundo real do filme, planejado meticulosamente e que alcança nessa cena seu momento chave é também apresentado com maestria por Scorsese em termos visuais.
Teddy sempre sonha com Rachel Solondo ensanguentada, ou mesmo abraçada à pequena Rachel no campo de concentração, mas repentinamente, na cena em que o carro explode, quem aparece para dar a mão a ela em seus devaneios é sua ex-esposa, a verdadeira mãe da menina. É a mente de Teddy lentamente voltando á realidade, movida pelos impulsos coordenados pelo seu psiquiatra, cuidadosamente aplicados. Diante de uma tragédia tão grande, diante do horror de confrontar o real ("A questão é: sua violência é maior do que a minha?" pergunta o chefe da guarda ao lhe dar carona, direcionando tudo ao cerne da questão), de se perder novamente nessa fuga, a melhor decisão é morrer como homem, ainda que isso signifique viver como um vegetal. Anular a violência no seu âmago.
A cena final, em que tudo é fingimento consentido, de lado a lado, e a dor com que Leehan consente, de longe, para a lobotomia, é a coroação perfeita.
De que me importa a surpresa final e outros achismos baseados em um comodismo preocupante na apreciação de filmes, como se todos tivessem que seguir fórmulas prontas e redutoras, quando essa jornada é tão rica em significados, interpretações e possibilidades?
E tenho certeza que a cada vez que rever Ilha do Medo, seu status de obra superior só vai crescer.

5 comentários:

analiseindiscreta disse...

Quando eu vi pela segunda vez, analisei o filme a partir da verdade exposta no desfecho, o que agora parece ter sido um erro - apesar de perceber alguns dos vários detalhes, a intensidade do filme diminuiu, com exceção da última cena.

analiseindiscreta disse...

No final das contas, é um bom filme. Não concordo com nenhum dos extremistas, apesar de tender mais para o seu lado (talvez seja, realmente, o melhor Scorsese desde Cassino).

Thiago Borges disse...

finalmente uma análise correta sobre Ilha do Medo: o filme NÃO É a reviravolta, até porquê ela não existe...

faço minhas as suas palavras Fabio, apesar de não ter considerado Shutter Island obra-prima.

Porém, é obra superior a todo o cinema feito atualmente..

Andre Luiz disse...

Sem medo de dizer,
entre os 5 melhores da década! senão o melhor
bela crítica no Blitz de hoje!

tha disse...

Foi nessa segunda vista que percebi mais acuradamente como a atuação de Mark Ruffalo e Ben Kingsley está maravilhosa.

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