5 de abril de 2010

A Estrada (John Hillcoat, 2010)



O livro de Cormac McCarthy, que é a origem, a base e as razões do filme de Hillcoat, não se atém a explicações. Prefere buscar sugestões, apontar direções, sugerir deliberações. McCarthy sabe que mais importantes do que as razões são as reações. Hillcot, sabiamente, bebe dessa fonte sem alterar a base da história, sem buscar digerir para a platéia aquilo que o autor sabia ser o menos importante. No fundo, “A Estrada” é quase um road-movie existencialista, sem automóveis, porque a gasolina é escassa, e com eventuais fugas da estrada porque nela também rodam assassinos e canibais. E o protagonista, que não tem nome, como todos no filme - porque nomes não interessam mais, não há identidades, não há posições sociais, apenas as de caça e caçador – vaga errante por um mundo destruído (pelo próprio homem, só pode ser, mas não temos maiores informações senão o fato de que a humanidade, como conhecemos, evaporou-se) ao lado de uma criança que não conheceu nada de bom deste mundo. Talvez, um dia, experimente uma coca-cola.

A desolação do ambiente árido, mistura de cinza e marrom, é apenas um complemento para a desolação dos próprios personagens. Que mãe diria algo como “Meu coração foi arrancado na noite que ele nasceu.”, falando sobre o filho? É uma construção de sentidos que fala mais do que mil palavras, diálogos e imagens, em apenas uma frase. A mãe e esposa não quer sobreviver. Ela quer desistir do mundo assim como o mundo desistiu dela – assim como tudo o mais desistiu deles. Centro da narrativa, movido pelo filho, o pai não quer desistir. Recusa-se a aceitar que não haja um caminho, um lugar, uma maneira de prosseguir, nem que para isso precise se agarrar à devoção pela criança como desculpa para seguir em frente. A questão é: até onde vale a pena, quando homens devoram homens e o sol não beija a terra?

A superação máxima dos limites do pai é apresentado em mais de uma ocasião, a arma na cabeça do filho, o choro silencioso, o desespero. Faz o espectador se perguntar: ele vai ter coragem, quando chegar a hora? Vai chegar a hora?

Nesse ambiente “asociológico” (e existe esse termo ou ele apenas serve para ilustrar um ponto de vista?), até que ponto nossos hábitos mais comuns na regalia são banais – como beber uma coca-cola, acender uma luz, ligar uma TV, dar partida em um carro, beber água gelada ou tomar um banho quente e colocar uma meia seca – e até que ponto eles são elementos estranhos à nossa condição natural de animais que, por algum motivo, desenvolveram o raciocínio?

O pai é o elemento que contrapõe a idéia de selvageria absoluta espalhada pelo mundo – não sem que, em determinado momento, seja a criança a agir como o “despertador” frente ao pai que começa, também, a reagir à selvageria com desprezo e falta de emoção. Mas ele é a devoção pela vida, o respeito, a proteção extrema, enquanto tudo ao redor é destruição, morte e degradação.

O ser humano é bárbaro por natureza. Sem tecnologia, sem sociedade, sem civilização, não somos mais do que animais, com o agravante de que, pior do que não ter raciocínio, é negar o raciocínio em prol do instinto de destruição, e não de sobrevivência.

Até onde, enfim, somos “seres superiores”?

1 comentários:

Pedro Pereira disse...

É um filme bastante bom, mas muito duro de ver.

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