25 de março de 2010

O Tesouro do Barba Ruiva (Fritz Lang, 1955)



A crítica portuguesa se desmancha, e boa parte da crítica brasileira também. Li recentemente um post do Mergen comentando da alegria de rever "Moonfleet" quando estava na Europa. Não é totalmente sem razão: á primeira vista poderia ser uma aventura juvenil de Sessão da Tarde, mas há cenas medonhamente tétricas de beleza e significado - aquela estátua de anjo com olhos brancos ficou na memória - que começam a jogar o filme em outro patamar - e Lang aponta seu cinema no intuito de formar um arco protetor de significados em torno de uma história simples, talvez simplificada até demais em seus personagens e suas motivações, mas que acaba resistindo muito bem: é uma iconografia clássica a lá Robert Stevenson e boa parte dos elementos nas histórias de caça ao tesouro, com um ritmo que condensa muito bem tanta informação em tão pouca duração, no que diz respeito a esse ritmo. Mesmo que esses ícones apareçam mais subjetivos do que diretos: não há o tesouro enterrado, no termo próprio, não há os piratas, no termo exato, mas há substitutos à altura que mantém a mesma aura. E há um personagem contraditório que escapa do rol de obviedades nessas referências, que são deliciosas. E junto dele, com o personagem principal, um menino, um leve conflito nunca esclarecido em demasia, para que seu significado possa ultrapassar o óbvio. É esse leve "conflito" que direciona todas as escolhas na história do órfão enviado à casa de um homem de reputação duvidosa, envolvido com contrabando, e a história do diamante perdido de um pirata morto há muito tempo.


Mas justamente aí, há falhas em "Moonfleet", e eu particularmente aponto o centro da narrativa e ao que Lang procurava alcançar induzindo uma relação conflituosa mas deixando completamente de lado qualquer construção de sentido na relação ambígua de pai/filho/aprendiz/lições/e/etc... Isso no sentido de que aquela cena final de despedida, por mais linda que seja, acaba não tendo impacto nenhum em quem assiste. O próprio Lang repudiou o filme quando foi obrigado a gravar um final "esperançoso" quando queria ter terminado com uma cena em uma balsa que seria, essa sim, rica em significados... até em termos de signos e histórias populares. Lembrei até de Arthur morto sendo conduzido por uma balsa, por mais louco que seja essa relação a princípio - mas há um algo mais no filme que fica flutuando depois dele terminar. Ainda estou processando algumas coisas.

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