De acordo com o dicionário, vanguarda significa um “agente, grupo ou movimento intelectual, artístico ou político que está ou procura estar à frente do seu tempo, relativamente a ações, idéias ou experiências”. Complementando, também significa quebrar o status quo, dar um passo que mais seria um enorme salto para a humanidade, enfim, revolucionar.
Na década de 80, a tecnologia evoluía cada vez mais, o computador começava a ficar pessoal, ônibus espaciais se tornariam rotina. Era inevitável, praticamente uma questão de tempo, que a computação gráfica passasse a ter um papel cativo na arte do cinema. No campo da animação, foi nessa década que começou um grupo vanguardista que iria mudar permanentemente a história do gênero: a
Pixar Animation.
Três pessoas foram essenciais para a criação e o desenvolvimento do estúdio:
Ed Catmull, cientista da computação;
Steve Jobs, o visionário empresário da Apple; e
John Lasseter, animador e diretor. Originalmente, John Lasseter era empregado da
Disney, Steve Jobs já ia de vento em popa com sua pequena maça e Ed Catmull procurava especialistas para criar ferramentas para os filmes de George Lucas, na
LucasFilm.
Acontece que Lasseter queria fazer o que ninguém queria dentro da
Disney: inserir animação 3D nos desenhos animados. Ele via um potencial enorme nisso, sua idéia era explorar a interação entre as técnicas, como no filme
Tron, por exemplo. Colocar um fundo movimentado pelo computador e personagens animados a mão era algo que ainda não existia, e ninguém queria tentar exceto Lasseter. Havia o medo de que os computadores substituíssem os animadores, que tirasse o emprego e a utilidade de várias pessoas.
Foi assim que a Disney demitiu o futuro diretor de
Toy Story, e foi assim que Catmull o chamou para a LucasFilm. Da equipe de criação foi criada uma subdivisão, que trabalhava com a animação e com a produção de novas máquinas e softwares para aumentar o desempenho, expandir os horizontes e diminuir as limitações. O nome de batismo
"Pixar" siginifica ‘criar pixels’ em espanhol e foi dado por causa de computador criado especialmente para animação, transformava imagens em alta resolução para o plano tridimensional.
O produto disso foram os premiados programas
Renderman e
Marionette. É possível vê-los “atuando” em filmes como
Jurassic Park,
Star Wars – A Ameaça Fantasma e dezenas de outros mais. Como todos os envolvidos são fãs da animação tradicional, investiram pesado e criaram o CAPS, que trouxe inovações para a animação 2D e pode ser conferida no clássico
A Bela e a Fera. Mais tarde, fechariam novamente uma parceria com a Disney.
Mas se tem algo que melhor define o estúdio é a característica de contar histórias. Não são apenas desenhos ou animações bonitinhas que enchem os olhos pela beleza gráfica, são histórias que agradam igualmente tanto adultos como crianças. A cada filme um novo universo é criado, cada personagem tem sua história, tudo e todos são construídos com um cuidado enorme. E sejamos sinceros, quais são os filmes da Pixar que podem ser realmente chamados de ruins? Uma coisa é não gostar de animação (o que é algo bem difícil) e não considerar ela uma arte a altura do cinema convencional por vários motivos, outra coisa é não distinguir a visão, a qualidade e a importância desta. Até porque cinema, como qualquer outra forma de arte, é um modo de expressão, independente o meio por qual esta se propague.
De fato, em tempo de vacas magras nos cinemas, poucos filmes são garantias de diversão e entretenimento. Há tempos não se via uma regularidade tão grande, uma seqüência de filmes tão boa como às obras da Pixar, mais especificamente Ratatouille, Wall-E e Up – Altas Aventuras. Aliás, este último foi a primeira animação em 3D a abrir o festival de Cannes e é forte candidato a uma vaga para concorrer ao Oscar de Melhor Filme este ano, ainda mais com as mudanças nas regras da competição. Seria muito interessante pelo menos a indicação, por mais que a Pixar tenha empilhado estatuetas desde sua criação (vinte e duas exatamente, entre melhor animação, prêmios técnicos e especiais).
Nos próximos anos serão lançadas as seqüências de
Monstros S.A.,
Toy Story,
Os Incríveis e
Carros, além dos inéditos
Newt e
The Bear and the Bow. É bem improvável que o nível de qualidade caia, muito pelo contrário, a cada filme as expectativas são superadas. Alguém duvida aonde esse bando de malucos podem chegar? Como diria
Buzz Ligthwear: para o infinito e além!
Segue os comentários sobre alguns dos filmes:
Toy Story e Toy Story 2A história de brinquedos que impulsionou tudo e encantou a todos. Os brinquedos de Andy, liderados por Woody, estavam com os nervos à flor da pele para saber qual seria o novo integrante da turma. Somos apresentados a um dos personagens mais carismáticos que existem: Buzz Lightwear. No segundo filme, um colecionador seqüestra Woody e Buzz vai atrás para salvá-lo. Prende por ser extremamente divertido e foi o primeiro longa de animação computadorizada a ser lançado.
Trailers:
aqui e
aquiProcurando NemoUm pai desesperado procurando pelo filho no vasto e infinito oceano. Belíssima trama, uma fábula que é capaz de unir novamente uma família. Em termos de ambientalização de cenários, talvez tenha sido o trabalho mais cuidadoso nesse aspecto. Impossível não rir com as várias palhaçadas da Dory, especialmente falando “baleiês”.
Trailer:
aquiRatatouilleTodo mundo pode cozinhar, era o que dizia o chef Gasteau. Qualquer um mesmo, inclusive um rato metido a gourmet. Além de lindas imagens, como a que ilustra o começo deste texto, também traz referências aos filmes do Sergio Leone: o começo com Remy pulando da janela, idêntico ao começo de
Três Homens em Conflito e o momento que ele finalmente enxerga Paris remete muito a cena que Claudia Cardinale entra na cidade em
Era Uma Vez no Oeste. E claro, um entretenimento de primeira.
Trailer:
aquiWall-ENão é qualquer filme que mistura gêneros como humor, ficção científica, aventura e romance de forma bem definida, que resulte em algo legal. O mundo vira um lixão, apenas Wall-E cuida da limpeza, até que surge Eva, uma sonda mandada ao planeta para detectar vida, por quem nosso pequeno amigo se apaixona instantaneamente. Bastante de Chaplin com um pouco de
2001: Uma Odisséia no Espaço, a trama se desenrola sem diálogos, apenas por expressões e sentimentos de coisas aparentemente sem vida. É de tirar o fôlego e encher os olhos.
Trailer:
aquiUp – Altas AventurasA história de Carl, um velinho rabugento que sonhava em conhecer a América do Sul. Como chegar até lá? Simples, amarrando milhares de balões na sua casa. Primeiro lançamento da empresa formatado para os Cinemas em 3D. Seu destaque é uma seqüência de 4 minutos, a passagem de tempo com Carl e sua esposa no começo do filme, que mostra toda a sensibilidade e a habilidade de mexer com os sentimentos do telespectador.
Trailer:
aqui